Acredito que a razão mais profunda pela qual escrevemos seja uma razão que raramente confessamos: escrevemos porque não queremos morrer. Não me refiro apenas à morte do corpo, que é inevitável, mas àquela outra morte, talvez ainda mais silenciosa, que acontece quando deixamos de existir na memória de alguém. Escrever é uma maneira de dizer ao tempo que passamos por aqui, que sentimos, amamos, sofremos, sonhamos e contemplamos o mundo. É uma tentativa humana de deixar alguma coisa para trás quando já não pudermos permanecer.
Desde muito antes dos livros, o ser humano já escrevia nas paredes das cavernas. Antes da literatura, havia mãos marcadas na pedra. Antes das bibliotecas, havia desenhos, símbolos e sinais. Talvez aquelas primeiras marcas fossem, em sua simplicidade, uma das mais antigas declarações humanas: "Eu estive aqui." O homem descobriu muito cedo que seu corpo desapareceria, mas percebeu também que poderia deixar vestígios de sua existência. A escrita nasceu, portanto, não apenas da necessidade de comunicar, mas também do desejo de permanecer.
Quando escrevemos, alguma coisa de nós se desprende do corpo e passa a viver em outro lugar. Nossos pensamentos tornam-se palavras; nossas experiências transformam-se em histórias; nossas emoções ganham forma e podem atravessar o tempo. O que sentimos em um determinado instante pode ser experimentado por alguém que ainda nem nasceu. É uma espécie de milagre silencioso: uma pessoa desaparece, mas sua voz continua falando.
Por isso, escrever é também lutar contra o esquecimento. O tempo possui uma força devastadora. Ele apaga rostos, modifica cidades, derruba casas, transforma paisagens e leva consigo gerações inteiras. Aquilo que não for preservado corre o risco de desaparecer. O escritor, de certa maneira, tenta salvar alguma coisa desse naufrágio. Ele recolhe fragmentos da existência e os coloca sobre o papel, como quem recolhe objetos preciosos antes que sejam levados pela correnteza.
Talvez seja por isso que escrevemos sobre a infância. Porque sabemos que ela passou. Escrevemos sobre pessoas que amamos porque sabemos que um dia elas partirão. Escrevemos sobre lugares porque sabemos que também eles mudarão. Escrevemos sobre nossos próprios sentimentos porque sabemos que até aquilo que hoje parece eterno será, algum dia, apenas lembrança. A escrita transforma o instante em memória e a memória em possibilidade de permanência.
Um escritor sabe que não pode vencer a morte, mas pode desafiar o esquecimento. E há uma diferença profunda entre essas duas coisas. A morte leva o indivíduo; o esquecimento tenta levar aquilo que ele significou. Escrever é uma maneira de resistir à segunda morte. É afirmar que nossa existência não foi apenas um acontecimento passageiro, perdido entre milhões de outros acontecimentos. É deixar uma pequena inscrição no grande livro do tempo.
Pode ser que por isso exista algo de profundamente espiritual no ato de escrever. Quando colocamos uma palavra no papel, estamos tentando criar permanência onde tudo é transitório. Estamos tentando construir uma pequena eternidade com aquilo que temos de mais frágil: a linguagem. Sabemos que nossos livros também podem desaparecer, que nossos nomes podem ser esquecidos e que até as bibliotecas podem ruir. Ainda assim, escrevemos. Porque o ser humano possui essa estranha esperança de que alguma coisa sobreviverá.
No fundo, todo escritor é alguém que se recusa a desaparecer completamente.
Não porque seja vaidoso, necessariamente, mas porque existe dentro de nós uma necessidade quase ancestral de testemunhar a própria passagem. Queremos que alguém, em algum momento, encontre nossas palavras e descubra que existimos. Queremos que um desconhecido leia uma frase nossa e, por alguns segundos, pense aquilo que pensamos. Queremos que uma emoção que nasceu dentro de nós encontre morada dentro de outro coração.
É por isso que escrever pode ser um ato de amor. Quem escreve acredita, ainda que inconscientemente, em um leitor futuro. Escreve para alguém que talvez ainda não conheça, alguém que poderá encontrar suas palavras quando o autor já não estiver presente. Uma página é uma espécie de encontro adiado entre duas existências: a de quem escreveu e a de quem um dia lerá.
E talvez seja essa a beleza maior da literatura. Um morto pode conversar com um vivo. Um homem do passado pode sentar-se silenciosamente diante de alguém do futuro e dizer: "Foi assim que eu vi o mundo." E o leitor, ao abrir o livro, responde sem palavras: "Eu ouvi você."
Por isso escrevemos. Escrevemos porque somos finitos e, justamente por sabermos disso, desejamos alguma forma de infinito. Escrevemos porque o tempo nos assusta. Porque a memória é frágil. Porque sabemos que as pessoas passam, as cidades mudam, os amores terminam e os corpos envelhecem. Escrevemos porque existe dentro de nós uma voz que se recusa a aceitar que tudo aquilo que fomos será simplesmente apagado.
Pode ser que escrever seja a nossa maneira mais delicada de dizer à morte: "Você pode levar a minha vida, mas não levará necessariamente a minha voz."
E enquanto houver alguém lendo, de alguma maneira, ainda estaremos vivos.
Talvez seja essa, afinal, a razão profunda de escrever: não queremos morrer inteiramente. Queremos deixar palavras suficientes para que alguma parte de nós continue respirando depois que o nosso último suspiro já tiver passado.
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense
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