sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O Abutre - Uma análise filosófica do filme


Por Odair José da Silva e Thalísia Aniceto 

Uma das atividades nas aulas de Filosofia neste bimestre foi a análise do filme O Abutre. Após apresentar o filme para as turmas do 1º e 2º Ano Médio, solicitei que os mesmos respondessem algumas questões relacionadas ao filme e o conteúdo trabalhado em sala de aula. O que segue são as perguntas que adaptei para eles e as análise da aluna Thalísia Aniceto do 1º Ano.

1. Um retrato quase satírico sobre ambição corporativa, o sonho americano, e no grande espectro, sobre a pior face do capitalismo. Podemos ver isso no Brasil? 

Sim, nos dias atuas o que mais vemos são violências, pessoas passando por cima uma das outras, sonhos sendo destruídos por pessoas que querem apenas oportunidades para elas independente do que isso pode provocar. Assassinatos, roubos, atentados, são acontecimentos mais frequentes de nossa sociedade e está bem longe de ter um fim pois não temos autoridades competentes que possa colocar um limite em atitudes erradas e encorajar atitudes que melhore nosso dia a dia.

2. “ Você pode encontrar tudo que quiser se procurar o suficiente” – Analise a frase de Louis, o personagem principal. 

O personagem principal se torna um homem focado nas coisas que deseja e não desiste até que consegue o que quer e assim querendo cada vez mais, mas ele ao mesmo tempo não respeita os limites que cada atitude tem a certo ponto e não pensa nas consequências de cada registro feito por sua câmera. Devemos agir sim como pensamos, mas refletindo em tudo o que pode acontecer se passarmos dos limites e gravarmos o que não deve.

3. A impressão crescente é realmente de que esta não é uma narrativa realista, e sim um sinistro e sombrio comentário político e satírico do sonho americano de sucesso financeiro e ascensão social. Como você analisa essa questão? 

Infelizmente nos dias de hoje as pessoas pensam muito em si mesmos e esquecem que elas não são o centro de tudo. Muitos indivíduos sentem prazer nas desgraças que acontecem na vida de quem vive ao seu redor. Com o pensamento que devemos crescer cada vez mais esquecemos de ter consciência sobre o que é certo e errado dos nossos atos. Nos interessamos e procuramos saber mais sobre coisas negativas que acontecem e acabamos nem vendo as poucas coisas boas que ainda acontecem em nosso país. Portanto devemos pensar mais antes de cada ação e refletirmos se devemos continuar ou não com tal atitude.

4. Algumas indagações e reflexões surgem ao terminar de assistir ao filme. O que realmente é notícia? Qual o limite para se chegar a uma notícia?

Cada dia que passa os jornalistas estão cada vez mais incessíveis em suas filmagens e noticiais, não se preocupam se estão exagerando com imagens fortes e como as famílias da vítima como de todo o mundo irá se sentir com tal reportagem. Claro que precisamos de notícias sobre o que está acontecendo na nossa sociedade, mas não precisa focar tanto nas atrocidades que a cada dia toma mais o espaço das notícias positivas que nos passe esperança que a violência do nosso país não será maior que a tranquilidade. Percebemos que tudo na vida tem um limite que não devemos ultrapassar e com as notícias não é diferente pois devemos pensar em mil detalhes como exemplo se tal imagem não é muito forte sobre o acontecido, qual será a repercussão da reportagem, etc.

5. Até onde vai o direito de um repórter fotografar (ou filmar) as estranhas de um acidentado, ou o rosto deformado de alguém que recebeu uma faca, ou o corpo já moribundo de um assaltante? E por que este tipo de conteúdo fascina tanto as pessoas? 

Os repórteres devem primeiramente procurar permissão para filmar independentemente qual assunto for, não devem passar do limite e gravar cenas de pessoas ensanguentadas vivas ou mortas. Deveriam pensar em como a família da pessoa acidentada ira se sentir com as seguintes imagens registradas. Infelizmente a tragédia das pessoas ainda chamam muito a atenção da sociedade que vivemos atualmente e as notícias que mais desejam acompanhar são as mais tristes e complicadas.

6. Por que este conteúdo chocante (assassinatos, assaltos, acidentes, incêndios) é tão consumido assim pelos espectadores? Os espectadores são vítimas de um jornalismo selvagem que somente busca audiência? Ou este mesmo jornalismo é refém de um público que só busca assistir atrocidades? O que move este mercado, que lucra muito em nossas cidades? 

Podemos perceber claramente que existe um jogo de interesses dos dois lados, encontramos uma grande necessidade na nossa sociedade sobre todos os tipos de notícias seja ela a mais tranquila como uma promoção em uma loja ou um grande acidente com muitas mortes. O jornalismo pensa principalmente em ter grande audiência para ganhar cada vez melhor e muitas vezes sem pensar se deveriam mostrar tão detalhadamente tal notícia. Neste tipo de mercado todos são culpados pois estimulam cada vez mais esse show de horror.

7. Faça uma reflexão sobre ética e sobre o contexto atual de nossa sociedade, a chamada sociedade da espetacularização. 

No mundo de hoje o que mais presenciamos são pessoas com sonhos de crescerem na vida a todo custo mesmo que seja necessário passar por cima de outras pessoas que também tem seus sonhos. As pessoas esquecem que devem ter cada um seu caráter próprio e começam a querer causa ideias positivas sobre si até mesmo com os piores atos que podemos imaginar e na sociedade que vivemos essas atitudes são aceitas e encorajadas pois a cada dia que passa é cada um por si e por seu sucesso.

8. A fotografia de "O Abutre" chama bastante atenção, já que a trama é na maior parte filmada pela noite. Percebe-se então um submundo, uma atmosfera sombria, que contrasta bastante com os dias ensolarados típicos de filmes de comédia ou de amor. Aqui a realidade é dark, e a fotografia faz questões de deixar isto bem claro. Desenvolva uma reflexão sobre a sua impressão sobre a fotografia do filme. 

O filme deixa bem claro os acontecimentos mais fortes que acontecem durante as noites, imagens fortes são mostradas sobre a escuridão do submundo e as tragédias ali acontecidas. Podemos perceber como as pessoas podem chegar a ter atos assustadores e impróprias para conseguir chegar aonde quer, seja com atitudes simples ou não. A sociedade não se preocupa mais com os limites das coisas que fazem para o próximo, pois pensam apenas nelas mesmos e como tal ato vai ajudar a si próprio. É lamentável vermos como o mundo está indo de mal a pior com o aumento da violência e a falta de autoridade para controlar tais atos que prejudicam cada dia a mais nossa sociedade em geral.

Texto: Odair José da Silva
Análise: Thalísia Aniceto - 1º Ano Escola Q. I. Cáceres, MT.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Júri Simulado do 7º Ano da Escola Q. I.


Por Odair José da Silva

O conteúdo de História sobre o período das Cruzadas trouxe-me a possibilidade de trabalhar um júri simulado com a turma do 7º ano. A partir daí nasceu em mim o desejo de superar os desafios e trabalhar com a turma. Comuniquei a Coordenadora Sandra e conversei com os alunos. Dividi a turma em quatro grupos de quatro alunos cada onde, os grupos 1 e 3 defenderiam Jerusalém para os cristãos e os grupos 2 e 4 defenderiam Jerusalém para os muçulmanos.

A missão deles eram pesquisar os principais acontecimentos envolvendo os conflitos entre cristãos e muçulmanos e elencar motivos para que a posse de Jerusalém ficasse com eles. Para decidir a questão foram escolhidos os jurados que deveriam observar as justificativas de cada grupo e dar o seu voto. Ensaiamos em algumas aulas e nos preparamos para a apresentação.

Nesta quarta-feira 25/05 realizamos o júri simulado com a participação da turma do 1º Ano Médio com a Professora Salete Olegair e a Professora Ycaruelc. Com o apoio da Direção e Coordenação da escola foi possível realizar um bom trabalho. A turma, dedicada e empenhada no projeto surpreendeu pela dinâmica nas apresentações. Foi um aprendizado e tanto. Agradeço a colaboração de todos no projeto e, principalmente, a Livia Paker pelas fotos.

Texto: Prof. Odair José.
Fotos: Livia Paker














































quarta-feira, 6 de abril de 2016

A representação da vida (ou a negação do real) em David Gale de Alan Parker


Por Rogério Almeida

O sentido da vida... Antes de começar este artigo, uma breve advertência: não o leia caso não tenha assistido ao filme. É uma advertência um tanto quanto óbvia, afinal a quem interessaria ler uma reflexão sobre uma obra que não se conhece? No entanto, muitas vezes traídos pela curiosidade, somos levados a querer conhecer mais, prontos a nos deixar seduzir pelo duplo sem conhecer a obra sobre a qual o duplo se constrói. Ou, então, o que me parece pior, queremos a opinião da crítica para saber se vale à pena ou não assistir ao filme e o que esperar dele. Frustrarei certamente a estes espíritos curiosos, pois inicio minha análise pelo final do filme. Portanto, leitor curioso, vá ao filme primeiro e, depois, se ainda restar ânimo à curiosidade, convido-o à leitura.

Feita a ressalva, recomecemos com o axioma: o sentido da vida é dado pela morte. Ou talvez o destino o seja. O fato é que a morte vem revelar, quando já não há mais vida, quem era o vivo. Mas qual o sentido revelado? É sempre uma representação, nunca uma verdade. É isso o que nos ensinou, por exemplo, as memórias de Brás Cubas, aquelas criadas por Machado e representadas pelo defunto autor. E por que deixar a um morto a narração da própria vida? Porque somente perdendo-a é que se ganha a isenção necessária para julgá-la. E o seu destino então nos é dado. Não como verdade, repito, mas como representação. É essa representação do sentido da vida que a morte de David Gale (Kevin Spacey) nos oferece. Mas qual morte? A representada pela fita cassete guardada pelo caubói e divulgada pela televisão? Ou a que a jornalista Bitsey Bloom (Kate Winslet) e nós assistimos um pouco depois, quando o filme termina?

A cena é pungente: no auge do thriller, Bitsey chega com a fita que inocenta David Gale, mas é tarde demais. Ele já foi morto pelo sistema carcerário. A fita é prova cabal de sua inocência. Mostra Constance (Laura Linney), amiga de Gale, a quem ele teria assassinado, cometendo o suicídio. Logo, se não houve assassinato, não houve assassino. Condenou-se, então, um inocente. Era disto o que os ativistas contra a pena de morte precisavam para reaquecer o debate sobre a pena capital e pedir sua reavaliação: se o sistema é falho, não pode ser aplicado, sob risco de se assassinar um inocente.

Acompanhamos o decorrer do escândalo, as declarações das autoridades, da opinião pública, a movimentação dos jornalistas, a dor de Bitsey Bloom... O sentido da vida de Gale nos é, pela primeira vez, representado. Inocente, morreu injustamente, longe do filho que amava. Imaginamos que tudo teria sido evitado se Constance não se suicidasse, se tivesse um pouco de paciência e esperasse que a leucemia desse fim à sua vida. De alguma forma, ela foi culpada não só pela própria morte, mas também pela de David Gale, que morreu por supostamente tê-la matado. Mas se a fita veio à tona, então alguém filmou seu suicídio e escondeu a prova da inocência de Gale. Esse alguém é o caubói, em cuja casa Bitsey encontrou a fita. Qual sua motivação? Idealismo. Por ser ativista contra a pena capital, a morte de um inocente seria o ideal para a causa que defendiam: a extinção da pena de morte. Seguindo o raciocínio, podemos inocentar Constance, que não teria a intenção de, com seu suicídio, matar um inocente, mas, com a gravação da fita, revelar essa inocência a tempo de poupar essa vida. Mas se a vida do inocente fosse poupada, o sistema continuaria defendendo a pena de morte por nunca um inocente ter sido punido injustamente. Então o caubói é culpado pela morte de Gale. Depreendemos que sua atitude é extremada, afinal deixar o amigo de Constance morrer para defender a sua causa é falta de altruísmo, de senso de justiça, ou seja, egoísmo. Ou fanatismo. Ou ainda loucura, como é sugerido ao longo do filme. Teria ele agido assim por amor a Constance?

Mas então surge uma nova fita e o segundo sentido da vida de Gale nos é representado. Para apaziguar a dor moral de Bitsey Bloom, que descobriu a verdade quando ela era quase inútil (assim como nós espectadores), afinal não foi possível evitar a morte de David, eis que o defunto havia tramado para que ela recebesse uma fita com uma nova informação. Nessa segunda vida, vemos que David Gale assistiu Constance em seu suicídio, tramou com ela o auto-sacrifício de ambos. Não foi ele que a matou. Ela se suicidou. Não foi ela, nem o caubói, nem o sistema, que matou Gale, foi ele que se deixou morrer. Então sua morte assume o caráter de martírio. David Gale foi um mártir. Ninguém sabe disso, somente nós, espectadores, e Bitsey. Que altivez! Morrer para matar a morte! Se suas vidas não foram em vão, se a causa que defendiam não era vã, se suas mortes têm algum sentido, é o do altruísmo, do dever moral levado à última conseqüência, da compaixão em seu ápice. Morreram por uma causa nobre, para que a pena de morte não continue matando quem mata, sob o risco de matar um inocente.


Representação! 

Nada nos impede de ver a morte de David Gale como hipócrita. A dele e a de Constance. Em primeiro lugar, porque eles representam o tempo todo. Ela representa-se como vítima, ele como inocente. Constance assassina-se. David é o cúmplice. Não bastasse essa culpa, David carrega ainda nove anos de mentira: não se defendeu adequadamente, escondeu provas, testemunhou em falso, manipulou a jornalista (e nós, espectadores, que olhamos para David com os olhos dela), e, o mais grave, provou sua inocência quando já não podia usufruir dela. E qual o motivo disso tudo? A representação de sua morte era infinitamente mais eloqüente que sua vida. Vivo, já não havia o que dizer, nem como dizer, nem ninguém que o ouvisse. Morto, sua inocência encenada fala por todas as inocências, as reais, se é que de fato alguma houve, e as possíveis: como saber se o sistema não falhou antes? Ou não falhará depois?

A discussão que o filme quer propor é a da pena de morte, se deve ou não ser aplicada. Mas não há como discutir, a partir do filme e no âmbito filosófico, essa questão. Por mais que o roteirista Charles Randolph, aliás, filósofo como o protagonista, desejasse levantar o debate, o fato é que David Gale não morre, como parece, para provar que o sistema é falho e, assim, cumprir seu destino de mártir e salvar os futuros condenados da desumanidade do sistema judiciário. Gale morre para resgatar sua imagem perante o filho, que foi afastado do pai pela ex-esposa e vive na distante Espanha. Morre também para provar ao Governador – que o desafiara em um debate transmitido pela TV a apontar um único inocente que tenha sido executado – que este estava errado. Morre também para comprovar os pressupostos de Lacan, o qual, nas palavras de uma aula ministrada por Gale (logo no início do filme), defendia que “viver de desejo não traz felicidade, pois o verdadeiro significado do ser humano é a luta para viver por idéias e ideais.” Morre, enfim, por sua amiga Constance, para lhe provar que não era egoísta e que partilhava das mesmas causas que ela, até o ponto do sacrifício.

Mas o fato é que Gale, a se tomar como verdadeiras as motivações relacionadas, está mais inclinado a morrer por uma causa egoísta do que altruísta. Se todos os pontos mencionados parecem altruístas, e de fato o são, estão também relacionados à impotência da personagem, ou melhor, ao fracasso de sua vida. Vivo, vale muito pouco; pode quase nada: não há como rever, nem mesmo falar, com o filho; não há mais como contar com o apoio de Constance, paciente terminal de leucemia; não há sequer como conseguir emprego. Para piorar, é alcoólatra e não consegue vencer o vício. Derrotado em todas as frentes, embora de uma inteligência privilegiada, jogar com a morte (a de Constance e depois a sua), e optar até o final pelo jogo, é a única maneira de representar um sentido para a sua vida e resgatar sua imagem: perante a sociedade, é a vítima (morreu sendo inocente); perante seu filho é o herói (provou sua inocência); perante o governador, é o vencedor (apontou um inocente injustamente punido com a morte)... Mas, e perante a jornalista? Ficamos com as suas lágrimas de compaixão e espanto. Podemos arriscar traduzi-las em palavras: ele sabia! – diriam as lágrimas – ele sabia!

A compaixão da jornalista, arrisquemos, se deve antes pela vida mal vivida de Gale que por sua morte. Lamentamos quando a morte vem cedo, porque seqüestra uma porção de tempo, rouba todas as possibilidades de devir, toda a potência da vida. Mas que poder tinha a vida de Gale? Longe da família, principalmente do filho, longe do trabalho, principalmente a docência, longe de Constance, leucêmica terminal, com uma acusação, essa sim injusta, de estupro, envolto com os problemas do alcoolismo, o que podia fazer David Gale de sua vida?

Lembremos ainda da referência a Lacan que Gale faz em sala de aula, ensinando aos alunos que não deveriam “medir a vida por aquilo que obtiveram em termos de desejos, mas pelos momentos de integridade, compaixão, racionalidade e até auto-sacrifício. Porque, no final, a única forma de medir o significado de nossas vidas é valorizando a vida dos outros.” Palavras proféticas que explicam seu gesto final: para valorizar sua própria vida, representa sua morte em nome da valorização da vida dos outros. Eis a genealogia de seu altruísmo egoísta ou de seu egoísmo altruísta.

“(...) para se ‘sacrificar’, ainda é preciso viver. Para que eu possa ‘me sacrificar’, de graça, deixem algo para mim, um último sopro de vida, algumas migalhas de existência, um quase-nada; (...) não há nada que sacrificar quando não temos nada a perder” (Jankélévitch, 1991: 145). Gale sacrifica não seu ser, mas seu resto de ser, seu mínimo ser, para ganhar a redenção de sua reputação.

E isso, assinale-se, não é nenhum mérito de nossa sociedade ocidental moderna, que prima por valores humanitários de base racionalista, hierarquizada e etnocêntrica. Com Malinowski (2003: 74; 76), analisando as tribos da Melanésia, compreendemos que a razão do suicídio, entre os selvagens ou primitivos, revela uma atitude mental “um tanto complexa – abrange o desejo de autopunição, vingança, reabilitação e queixa sentimental. (...) A pessoa publicamente acusada admite sua culpa, assume todas as conseqüências, castiga o próprio corpo, mas ao mesmo tempo declara ter sido aviltada, apela aos sentimentos dos que a levaram a esse extremo.” Em outras palavras, é uma meio de fuga e reabilitação.

No caso de David Gale, não é diferente, sua motivação autopunitiva é também uma forma de vingança, de queixa sentimental e, principalmente, de reabilitação. No final, não há como dizer que sua morte foi por ideais, mas por orgulho intelectual: a escolha da melhor saída para representar-se como herói.

O filme, em última instância, revela a impossibilidade de os personagens conviverem com o real, de aceitá-lo. O mundo, tal qual se apresenta ordenado socialmente, tornou-se um simulacro em que tudo é representação. A morte de Constance é reproduzida para e pelo vídeo: no primeiro, sem David Gale (o que prova sua inocência); o segundo com David Gale (o que anula sua inocência sem mostrá-lo culpado). Sua última aparição no filme, por meio da fita de vídeo entregue a Bitsey, ocorre quando ele já está morto; no entanto, vemos a reprodução de sua imagem, como a zombar de nossa ignorância, pronta para destituir o sentido de sua vida (poderia dizer de sua morte) e substituí-lo por outro. No fundo, a proliferação de sentidos simulados mostra justamente seu contrário: a ausência de sentidos, tanto para a vida como para a morte.

Segundo Baudrillard (1990), vivemos na pós-orgia. Todas as liberações já ocorreram. Estamos libertos das ideologias, da política, da revolução, da utopia. Não há mais ideais, apenas a representação desses ideais que, por sua vez, eram representações metafísicas que davam um sentido à existência. Não há mais ideais, eles não motivam, não impulsionam, não são fortes o bastante para justificar uma morte ou dar sentido a uma existência. O que restou é uma simulação, uma pálida representação do que um dia significaram. Por isso é importante que, para além do ideal antipena de morte, víssemos as motivações pessoais de cada um: Constance tentava salvar as vidas dos condenados, já que não podia salvar a sua própria. Gale representa sua inocência para seu filho, limpando de seu passado qualquer culpa. O paradoxal é que levou injustamente a culpa por um estupro que não cometeu, que foi simulado, e, quando era culpado (não da morte de Constance, mas da trama que a envolveu), morreu como inocente. O fato importa pouco, o que conta é a representação.

No final das contas, ninguém está errado e a verdade não está do lado de nenhuma representação. Pouco importa defender ou atacar a pena de morte, o que vale é saber representá-la, tanto a pena quanto a morte, pois é esta, com seu ponto final, que propiciará a representação de um sentido para vida. E mesmo que esse sentido seja a negação do real, a sua substituição, não há muito que fazer. Diante do pouco que o real e a existência nos oferecem, duas podem ser as saídas: uma é negá-lo, como fez todos os personagens do filme; a outra é, a partir da constatação do trágico da existência, afirmar, incondicionalmente diria Nietzsche, esse real. E, então, vivê-lo!

Referências Bibliográficas 

BAUDRILARD, Jean. A Transparência do Mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. Campinas, Papirus, 1990.
JANKÉLÉVITCH, Vladimir. O Paradoxo da Moral. Campinas, Papirus, 1991.
MALINOWSKI, Bronislaw. Crime e Costume na Sociedade Selvagem. Brasília / São Paulo, UnB / Imprensa Oficial do Estado, 2003.

Rogério de Almeida é professor da FIZO, doutorando em Educação pela USP, poeta e escritor, autor, entre outros, de O Dia em que Conheci Jim Morrison.

Fonte: http://www.cinequanon.art.br/ensaios_detalhe.php?id=1