segunda-feira, 30 de março de 2026

Falando sobre cinema

    Três garotos brincam inocentemente na rua quando são abordados por um carro. Dois homens já de idades e aparentando ser policiais abordam os garotos e os intimidam. Os dois mais espertos conseguem se livrar dos homens enquanto que o mais tímido é colocado dentro do carro e levado para um porão no meio do mato onde é violentado. A vida deles nunca mais será a mesma. 
 
    Um homem que trabalha com dinheiro de investidores ouve escondido no banheiro, sobre uma possível barbada numa corrida de cavalos. Com o dinheiro do investidor ele vai até o local e aposta uma grana alta no cavalo que sai na frente da corrida mais sofre uma queda na reta final frustrando o apostador. Acontece que o investidor agora quer receber o dinheiro. Fazer o que pra pagar uma divida dessas? 
 
    A mulher vive um momento de dificuldade na vida amorosa e o casamento passa por uma fase de frieza constante. Ao sair num dia chuvoso de casa ela se depara com um homem que a ajuda a pegar os papéis que voaram de suas mãos durante o vendaval. Ao se levantar o seu olhar cruza com o do jovem a sua frente e ali surge um lance que a conduz até a cama do rapaz. 
 
    Essas cenas descritas nos parágrafos acima estão, respectivamente, nos filmes Sobre Meninos e Lobos, Ligados pelo Crime e Infidelidade e mostram cotidiano da vida das pessoas que poderiam acontecer com qualquer pessoa. 
 
    O cinema, ou melhor, os filmes produzidos pelo cinema e para a televisão mostram cotidianos que não acontece necessariamente com todo mundo, como afirma Cabrera, mas que poderiam acontecer com qualquer um. Esse ponto faz com que paremos e pensamos na realidade constante da vida das pessoas. 
 
    O cinema nos possibilita uma visualização de acontecimentos que paramos para refletir. Essa função do cinema é que muitas pessoas ainda não se deram conta da sua importância para o aprendizado dos alunos. Nesse sentido, o cinema é universal e por isso, pensa. 
 
    No Projeto que desenvolvo sobre o Cinema na Sala de Aula é esse o ponto crucial para a compreensão dos alunos. A reflexão dos alunos sobre o filme que assistiram deve ser exigida, estimulada e capacitada a ponto deles entender os acontecimentos. A partir desse entendimento passamos a entender a pretensão dos filmes. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense 
 
Referência Bibliográfica: CABRERA, Júlio. O Cinema Pensa. Uma introdução à filosofia através dos filmes. Rocco. São Paulo, SP, 2006.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Babel

    O filme Babel (2006), dirigido por Alejandro González Iñárritu, constrói uma poderosa reflexão filosófica sobre a condição humana na contemporaneidade ao entrelaçar histórias dispersas geograficamente, mas unidas por uma mesma falha estrutural: a impossibilidade de comunicação plena. Inspirado no mito bíblico da Torre de Babel, o longa desloca o problema da diversidade linguística para uma dimensão mais profunda, a incapacidade existencial dos indivíduos de compreenderem uns aos outros, mesmo quando compartilham o mesmo idioma, o mesmo espaço ou até a mesma dor. 
 
    Nesse sentido, o filme revela que a incomunicabilidade não é um acidente, mas uma condição. Os personagens não falham apenas porque não conseguem traduzir palavras, mas porque estão aprisionados em suas próprias experiências, traumas e perspectivas. A jovem japonesa, imersa em um silêncio que ultrapassa a deficiência auditiva, expressa de forma radical a solidão contemporânea: cercada por uma cidade vibrante e hiperconectada, ela não encontra um olhar que a reconheça como sujeito. O casal americano, atravessado por uma tragédia íntima, demonstra que nem mesmo a intimidade garante compreensão. A babá mexicana, por sua vez, encarna a invisibilidade social daqueles que sustentam afetivamente o mundo, mas são excluídos por estruturas políticas e jurídicas que os reduzem a categorias. Assim, o filme ecoa a reflexão de Hannah Arendt sobre a perda de um espaço comum de onde os indivíduos possam aparecer uns aos outros como seres dotados de sentido. 
 
    Além disso, Babel evidencia como o mal-entendido se torna a lógica dominante em um mundo globalizado. Um único disparo acidental desencadeia uma cadeia de interpretações equivocadas que revelam não apenas erros de comunicação, mas estruturas de medo e desconfiança. O outro, sobretudo quando distante cultural ou geograficamente, é rapidamente enquadrado como ameaça. Essa dinâmica se aproxima das análises de Zygmunt Bauman, que descreve a contemporaneidade como marcada por relações frágeis e por uma constante sensação de insegurança. Em vez de promover aproximação, a globalização intensifica a ansiedade diante da diferença, transformando o encontro com o outro em um risco a ser administrado. 
 
    A narrativa da jovem japonesa também permite uma leitura existencialista, especialmente à luz de Jean-Paul Sartre. Sua busca desesperada por contato, muitas vezes mediada pelo corpo e pela sexualidade, revela o desejo fundamental de ser reconhecida pelo olhar do outro. Contudo, esse mesmo olhar a reduz, a objetifica, aprisionando-a em uma identidade que ela não controla. O paradoxo sartreano se manifesta com intensidade: o outro é necessário para que eu exista, mas também é aquele que pode me negar enquanto sujeito. Em uma sociedade saturada de imagens e estímulos, o reconhecimento torna-se superficial, e o indivíduo, mesmo exposto, permanece invisível. 
 
    O filme também se articula como uma crítica às estruturas de poder que organizam a contemporaneidade. Instituições como o Estado, a mídia e os sistemas de controle operam por simplificação, transformando vidas complexas em narrativas utilitárias. O jovem marroquino é rapidamente associado ao terrorismo; a babá é tratada como ilegal; o sofrimento é hierarquizado conforme a posição geopolítica dos sujeitos. Essa leitura encontra ressonância nas ideias de Pierre Bourdieu, para quem o poder simbólico impõe classificações que naturalizam desigualdades e invisibilizam determinadas existências. Em Babel, a dor não é apenas vivida, ela é interpretada, enquadrada e distribuída de forma desigual. 
 
    Dessa forma, o filme oferece uma crítica contundente à contemporaneidade ao expor o paradoxo central do mundo atual: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão incapazes de nos compreender. As redes de comunicação, longe de eliminar distâncias, muitas vezes amplificam ruídos, aceleram julgamentos e reduzem a complexidade do outro a estereótipos. A empatia cede lugar à pressa interpretativa; o diálogo é substituído por narrativas prontas. 
 
    Ao final, Babel não propõe reconciliação nem solução. Sua força está justamente em revelar a dimensão trágica da existência contemporânea: um mundo em que o encontro com o outro é sempre atravessado por ruídos, medos e desejos não resolvidos. Como na antiga torre, não é a multiplicidade das línguas que nos separa, mas a ilusão de que, em algum momento, realmente partilhamos um mesmo entendimento. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense