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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A cegueira política e o espaço conquistado pela ignorância

    Existe uma forma de cegueira que não depende da ausência de luz. É aquela que acontece quando os olhos permanecem abertos, mas a consciência se recusa a enxergar. Talvez essa seja uma das formas mais preocupantes de cegueira humana: perceber os acontecimentos, ouvir os discursos, testemunhar as consequências e, ainda assim, escolher não compreender. Na política brasileira, essa cegueira assume dimensões particularmente dolorosas. Não porque o cidadão seja obrigado a dominar teorias políticas, economia, direito constitucional ou história, mas porque uma sociedade democrática exige algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: disposição para pensar. Pensar antes de repetir. Questionar antes de acreditar. Conhecer antes de julgar. E, sobretudo, reconhecer que a política não acontece apenas nos palácios, nos parlamentos ou durante as eleições. Ela entra diariamente em nossas casas, escolas, hospitais, ruas, empregos e famílias. O problema começa quando a política deixa de ser objeto de reflexão e transforma-se em objeto de paixão cega. 
 
    Há pessoas que defendem políticos como quem defende um time de futebol. Não importa o que aconteça: sempre haverá uma justificativa, um inimigo externo, uma teoria, uma desculpa. O político deixa de ser representante e passa a ser tratado como ídolo. A crítica ao governante é interpretada como ofensa pessoal. O argumento é substituído pelo ataque. A informação dá lugar ao boato. A investigação é confundida com perseguição. E a realidade passa a ser aceita ou rejeitada conforme agrade ou desagrade às convicções previamente estabelecidas. Nesse ambiente, a verdade torna-se inconveniente. É triste observar como o debate público pode ser reduzido à repetição de frases prontas. Muitas vezes, pessoas que não conhecem a história política do próprio país sentem-se suficientemente seguras para explicar todos os seus problemas. Pessoas que não leram uma proposta, não acompanharam uma votação, não verificaram uma informação e não conhecem sequer as atribuições de determinadas instituições passam a falar com absoluta certeza sobre assuntos complexos. Não há vergonha em não saber. A verdadeira tragédia está em não saber e não querer aprender. 
 
    É nesse sentido que a expressão “analfabetismo político” pode ser compreendida. Não se trata de humilhar quem teve menos acesso à educação ou de estabelecer uma hierarquia entre cidadãos. Trata-se de uma condição de ignorância cívica que pode atingir inclusive pessoas escolarizadas. Alguém pode possuir diplomas, dominar tecnologias, conhecer línguas estrangeiras e, ainda assim, permanecer profundamente vulnerável à manipulação política. Porque conhecimento acadêmico e consciência política não são exatamente a mesma coisa. O cidadão politicamente consciente não é aquele que concorda com determinada ideologia. É aquele que compreende que suas convicções podem ser questionadas. É aquele capaz de reconhecer erros no próprio grupo, virtudes no grupo adversário e complexidades onde os discursos simplistas oferecem apenas certezas. A democracia exige essa maturidade. Entretanto, vivemos em uma época em que a velocidade da informação muitas vezes venceu a disposição para compreendê-la. Uma mensagem curta pode circular milhares de vezes antes que alguém pergunte se ela é verdadeira. Uma imagem pode provocar indignação antes que seu contexto seja conhecido. Uma frase atribuída a uma autoridade pode transformar-se em “verdade” simplesmente porque confirma aquilo que alguém já desejava acreditar. 
 
    A mentira política não precisa mais convencer completamente. Basta que produza dúvida, indignação ou ódio. E aqui está uma das grandes tragédias contemporâneas: algumas pessoas já não procuram informações para formar opiniões; procuram informações para justificar opiniões que já possuem. A política deixa, então, de ser uma busca coletiva por soluções e transforma-se em uma guerra permanente de identidades. “Nós” contra “eles”. “Os nossos” contra “os outros”. “Meu político” contra “seu político”. E, nesse confronto, o cidadão desaparece. Quando isso acontece, a sociedade começa a perder algo essencial: a capacidade de conversar. E uma sociedade que perde a capacidade de conversar começa, lentamente, a perder também a capacidade de pensar coletivamente. 
 
    A tristeza não está simplesmente no fato de existirem pessoas pouco informadas. A ignorância sempre acompanhou a humanidade. A tristeza está em perceber que, em determinados ambientes, a ignorância pode conquistar mais espaço do que o conhecimento justamente porque oferece respostas fáceis para problemas difíceis. O pensamento exige esforço. O fanatismo oferece conforto. Pensar significa admitir dúvidas. Significa reconhecer que determinado problema possui várias causas. Significa estudar, comparar, revisar posições e aceitar que podemos estar errados. A cegueira política, ao contrário, oferece a sensação reconfortante de que tudo é simples: há os bons e os maus, os culpados e os inocentes, os salvadores e os inimigos. Mas a realidade raramente é simples. Uma democracia saudável não precisa de cidadãos que pensem todos da mesma maneira. Precisa de cidadãos capazes de pensar. A divergência é inevitável; a incapacidade de conviver com a divergência é que se torna perigosa. 
 
    Por isso, uma das maiores responsabilidades de nosso tempo é recuperar o valor da educação política. Não a educação destinada a formar seguidores de determinada corrente, mas aquela que ensina a compreender instituições, direitos, deveres, história, economia, Constituição, políticas públicas e, principalmente, o valor da dúvida. Ensinar alguém a perguntar “qual é a fonte dessa informação?” pode ser mais importante do que ensinar-lhe uma opinião pronta. Ensinar alguém a perguntar “quem se beneficia com essa narrativa?” pode ser mais poderoso do que oferecer-lhe um discurso. Ensinar alguém a dizer “não sei, preciso estudar” talvez seja uma das maiores demonstrações de inteligência. Porque a democracia não morre somente quando alguém destrói suas instituições. Ela também se enfraquece quando os cidadãos deixam de pensar sobre elas. A cegueira política, portanto, não está apenas nos olhos daqueles que não querem enxergar. Ela está também na arrogância daqueles que acreditam já ter enxergado tudo. E essa é a maior ironia: enquanto muitos discutem apaixonadamente sobre quem deveria governar o país, poucos se perguntam que tipo de cidadão estão se tornando enquanto escolhem seus representantes. 
 
    Uma sociedade pode trocar governantes inúmeras vezes e continuar politicamente imatura. Pode mudar partidos, slogans, bandeiras e discursos, mas permanecer prisioneira dos mesmos preconceitos. Pode combater a ignorância dos outros e cultivar cuidadosamente a própria. Por isso, antes de perguntarmos quem é o culpado pela cegueira política brasileira, talvez devêssemos olhar para dentro de nós mesmos. Quantas vezes acreditamos em algo simplesmente porque desejávamos que fosse verdade? Quantas vezes compartilhamos uma informação sem verificar? Quantas vezes defendemos alguém que jamais aceitaríamos que fosse defendido se pertencesse ao lado contrário? Quantas vezes confundimos convicção com conhecimento? 
 
    A primeira luz contra a cegueira política é a humildade. A humildade de reconhecer que não sabemos tudo. A coragem de investigar aquilo que contradiz nossas crenças. A disposição de ouvir quem pensa diferente. E a consciência de que nenhum político, partido ou ideologia merece substituir a nossa capacidade de pensar. 
 
    A democracia precisa de cidadãos, não de torcedores. Precisa de consciência, não de idolatria. Precisa de memória, não de conveniência. Precisa de perguntas, não apenas de respostas. Sendo assim, a maior esperança para uma sociedade cansada de seus próprios conflitos é compreender que o contrário do analfabetismo político não é simplesmente saber em quem votar; é aprender a compreender o mundo político antes, durante e depois do voto. Porque uma sociedade verdadeiramente livre não é aquela em que todos pensam igual. É aquela em que ninguém precisa deixar de pensar para pertencer. 
 
Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense