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sexta-feira, 17 de abril de 2026

O desejo e a realidade

    O desejo não é apenas um impulso: é uma estrutura fundamental da experiência humana. Ele não se limita a reagir ao mundo, ele o antecede, o interpreta e, em certa medida, o cria. Dizer que o desejo fala mais alto que a realidade não é apenas uma observação psicológica; é reconhecer uma tensão ontológica entre aquilo que é e aquilo que falta. 
 
    Desde Platão, o desejo aparece como movimento em direção ao que não se possui. No Banquete, o eros é filho da pobreza e da astúcia: ele deseja porque carece, mas também porque imagina. Essa dupla condição revela algo essencial, o desejo não nasce do vazio absoluto, mas de uma consciência da incompletude. A realidade, nesse sentido, nunca basta, porque o humano não é um ser satisfeito pelo dado, mas inquieto diante dele. 
 
    Séculos depois, Arthur Schopenhauer radicaliza essa visão ao afirmar que a vontade, esse querer incessante, é a essência do mundo. Para ele, viver é desejar, e desejar é sofrer, pois a realidade nunca acompanha plenamente a intensidade do querer. Quando o desejo se realiza, logo se dissolve, dando lugar a outro. Assim, a realidade é sempre insuficiente diante da voracidade do desejo. Não porque o mundo falhe, mas porque o desejo, por natureza, não conhece saciedade duradoura. 
 
    Já em Sigmund Freud, o desejo ganha contornos ainda mais complexos. Ele não é transparente para o sujeito; muitas vezes, nem sabemos exatamente o que desejamos. O inconsciente desloca, disfarça, reprime. O que se apresenta como realidade psíquica pode ser mais determinante que a própria realidade objetiva. Nesse ponto, o desejo não apenas fala mais alto, ele reconfigura o que entendemos por real. 
 
    Mas é com Jacques Lacan que essa ideia atinge uma formulação decisiva: o desejo é sempre o desejo do Outro. Ou seja, desejamos dentro de uma rede simbólica, atravessados pela linguagem e pela cultura. O objeto do desejo nunca é plenamente alcançável porque ele é, em essência, falta estruturante. A realidade, então, aparece como limite, mas também como aquilo que impede o desejo de se fechar sobre si mesmo. 
 
    Dizer que o desejo fala mais alto que a realidade é, portanto, reconhecer que a existência humana não se orienta apenas pelo que é, mas pelo que falta, pelo que escapa, pelo que se projeta. No entanto, há um risco: quando o desejo se absolutiza, ele pode se tornar uma força de negação do real, levando à ilusão, à frustração ou mesmo à alienação. 
 
    Por outro lado, sem o desejo, a realidade seria estática, inerte, desprovida de sentido. É o desejo que introduz o possível no interior do real. Ele rompe a repetição, inaugura caminhos, funda projetos. A tensão entre desejo e realidade não é um problema a ser resolvido, mas uma condição a ser habitada. 
 
    Sendo assim, o pensamento filosófico não busca silenciar o desejo em nome da realidade, nem dissolver a realidade em nome do desejo. Busca, antes, compreender o espaço entre ambos, esse intervalo onde o humano se constitui: nem plenamente satisfeito, nem totalmente perdido, mas sempre em movimento, entre o que é e o que insiste em querer ser. 
 
Ensaio Filosófico: Odair José, Poeta Cacerense

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Os pensamentos do ser humano

    O que você pensou ao acordar? Lembra-se dos pensamentos antes de dormir? O tempo todo estamos pensando em algo ou alguém. Faz parte do ser humano desenvolver os pensamentos. Alguns maquinam o mal em seus pensamentos noturnos, outros sofrem em seus pensamentos pelas pessoas que sofrem no mundo. Os pensamentos tomam conta de nossas vidas cotidianamente. 

    As crianças fazem perguntas o tempo todo porque querem saber o funcionamento das coisas, as engrenagens da vida. Os adultos fogem dessas perguntas porque já perceberam que quanto mais perguntas tentamos responder, mais perguntas surgem com as respostas. É infinito o que desconhecemos e finito o que sabemos. Uma gota do oceano o que os nossos olhos já viram ou nossos ouvidos ouviram. É um oceano inteiro o que não sabemos. Então, em alguns bate o desespero de uma vida que não parece fazer sentido. Em outros, a despreocupação com o que acontece a sua volta. Afinal, se não me preocupo, não me atinge. E assim caminha a humanidade. 

    Quanto já se pensou? Existe um final para o pensamento humano? Quem criou a ideia do pensamento? São infinitas perguntas e limitadas as respostas. O mundo não para de girar. O tempo não espera por ninguém e, por mais que desejamos, não temos fôlego para acompanhar as transformações humanas no tempo e no espaço. A única coisa que podemos fazer é pensar. Alguns, como eu, vão além desses pensamentos que voam pelos espaços e conseguem canalizar alguns deles em poesias, pensamentos e histórias que podem ser lidas em outras épocas. 

    O que penso hoje já foi pensado um dia? O que escrevo hoje sobre os meus pensamentos ajudarão outros a desenvolverem os seus pensamentos? São muitas perguntas e quase nenhuma respostas. E assim caminha a humanidade. Sigamos em frente. Reflita sobre minhas palavras e pense sobre os seus pensamentos. 

Reflexão: Odair José, Poeta Cacerense